A fantástica fábrica de chocolates...




Laura é uma aluna como todas as outras, pelo menos para quem não a conhece. Gosta de conversar, debater e conhecer, isso facilita sua interação com várias pessoas.
Mantém relações de amizade com alunos e professores da escola em que estuda e também trabalha.
Certo dia, quando conversava com alguns colegas, no pátio da escola, durante o período de intervalo, o Professor de Física, Roberto, sentou-se ao seu lado, interrompeu a conversa e dirigiu-se à Laura:
-Oi, fiquei sabendo que você canta, é verdade?
-Não... Por quê?
-Ah! Não minta! Canta sim não é?
-...
-Bom, mas enfim. Estou fazendo um projeto pessoal, uma banda, e temos todos os integrantes, menos um vocalista. Os caras não sabem cantar e precisamos de alguém que seja afinado. Eu estava pensando em tocarmos, quem sabe... Black Sabbath, Pink Floyd, Led Zeppelin... Não sei. Mas, vamos ensaiar esse sábado, topa tocar com a gente? Eu passo te buscar... Onde você mora?
Laura não pensou em nada, ela estava empolgada com tudo aquilo, afinal, ela realmente canta, e entrar para uma banda seria muito legal. Ela nunca havia trocado um “Oi, Professor, Tudo bem?”, com o professor Roberto, mas, aquela parecia uma proposta confiável e com todo o ânimo e o desejo de que alguém além do pessoal da igreja valorizasse a sua voz; o desejo de cantar algo além de hinos da igreja lhe parecia agradável.
Quem era Roberto? E o que Laura sabia sobre ele? Nada.
Contudo, ela lembrou-se de uma conversa de alguns meses atrás com seu ex-professor Pablo, que comentara sobre Roberto. Os comentários não eram bons, revelavam uma pessoa sem caráter, que apesar de PROFESSOR, não tinha uma conduta referente á profissão, totalmente machista e conservador, mais um, inserido em uma sociedade sexista e que segundo os comentários participava alegremente desta mesma sociedade.
Laura então teve receio, mesmo assim respondeu:
-Jardim Nebuloso.
-Ah, ok! Passo te buscar então. Acertamos tudo depois então.
Depois, se virou para alguns meninos que conversavam com Laura e lhes disse que pretendia organizar um projeto para o final do Ano Letivo, onde todos os alunos do Ensino Médio que tocassem algum tipo de instrumento participariam.
O sinal do intervalo tocou, e todos voltaram para as suas salas de aula. Na ida para a casa, Laura decidiu ligar para Pablo, para saber o que ele achava de toda aquela proposta, um pouco mais que o esperado, sim! Um sermão do Alaska.
Pablo disse o que achava de Roberto, que adorava “catar” alunas e que na verdade ele não tocava nenhum instrumento, sendo assim, como a Suposta Banda poderia ser falsa, o projeto com todos os alunos para o final do Ano Letivo também.
Pablo mantinha um tom preocupante na voz, advertia Laura contra este tipo de professor que esquece o papel de lecionar, e simplesmente passa a assediar alunas com “historinhas da Carochinha”, anos treinando as mesmas práticas, e qualquer uma cai. Adolescentes são frágeis, assim como Laura foi. Pablo foi duro, embora tenha sido necessário.
Laura agradeceu a ajuda de Pablo, contudo se sentia mal, por não ter sido esperta o bastante pra perceber toda aquela conversa. Foi uma decepção para ela, mas, poderia ter sido pior! Assim para ela, como para muitas outras alunas de Ensino Médio e Fundamental (sim, FUNDAMENTAL).
Roberto deveria estar tão interessado na voz de Laura, que sequer perguntou sobre sua experiência musical, perguntou se ela cantava apenas para introdução do assunto.
 Nossa sociedade é formada por gente como Roberto, ideais forjados a partir de uma cultura cristã, conservadora, machista e sexista. Que não se importa em mentir um suposto ensaio de uma suposta banda para uma aluna, por mais inocente que seja essa aluna.
Abrir brecha para um indivíduo como esse, formado por características citadas acima, é colocar-se em perigo sem ao menos perceber tal ação

- Texto por Ketelyn. 


2 comentários:

Augusto Miranda disse...

Ketelyn,
Sou "meio que suspeito" de comentar qualquer coisa nessa página aqui [rs], mas não resisti de vir lhe dar os parabéns tanto pelo assunto, quanto pela forma de escrita e de discorrer...

Esperando por mais!
Augusto M.

Ketelyn Rocha disse...

Obrigada Augusto, é um prazer ler tais elogios! :)