Obscenidade (neo)liberal - Por Oswaldo "Duco"

Os direitos serão pouco a pouco retirados do rol das conquistas sociais e incluídos na lógica da meritocracia. O próprio direito de viver será enquadrado na lógica do mérito. De agora em diante, os direitos serão adquiridos via lógica meritocrática. A quem mereça e a quem não mereça tê-los. A escolha de cada um será sua própria sentença. Cada qual garantirá sua própria sobrevivência. Os interesses privados serão as soluções para todos os problemas sociais, econômicos e políticos. Desigualdade social passará a ser sinônimo de incompetência, de caráter e de vagabundagem, bem como de algo ligado à ideia de pouco esforço individual em querer vencer na vida. Nosso grau de sucesso será medido pela nossa adaptação ou não às regras do jogo neoliberal. O importante é saber adaptar-se constantemente. E quem não se adaptar será naturalmente eliminado do jogo. Viva o darwinismo social! Todos os sonhos serão reduzidos à mercantilização (onde tudo se compra e tudo se vende). O suficiente para preencher a satisfação existencial. Ser consumidor será o máximo de direito possível ao qual se poderá brigar, principalmente, no que concerne ao direito de propriedade privada. O mercado e a gulodice do lucro serão os grandes deuses que guiarão nossas ações. Tudo se resumirá aos seus pressupostos. As pessoas serão valorizadas por aquilo que possuírem (bens materiais), pelo poder de compra e pela capacidade de multiplicar as suas próprias riquezas (dinheiro) em favor de si mesmas. O foco central será não se deixar corromper por ideias anacrônicas, e entre elas estarão a de justiça social e de igualdade. A sociedade não passará de um aglomerado de pessoas atomizadas. Cada qual buscando maximizar os seus próprios interesses. Nada além desses interesses. A única racionalidade possível. Todos buscarão realizar os seus interesses de ganho. O egoísmo, aliás, será algo inerente ao ser. E qualquer tentativa de ir contra o egoísmo será o mesmo que atentar contra a natureza humana. Na concepção antropológica neoliberal, cada qual se reduz um em relação ao outro pela busca de vantagens individuais, egoístas. A sociedade, então, será uma somatória de indivíduos movidos pela selvagem concorrência uns com os outros. Uns contra os outros. E será nesse ambiente que deveremos ser educados, é nele que deveremos fincar nossas apostas existenciais. Essa será a nova aposta neoliberal no ser humano. Oswaldo Duco é professor de Sociologia e formado pela UNESP.

5 comentários:

Ricardo Pereira da Silva disse...

Pois é, duro é ouvir esse pessoal atomizado defender em plenos pulmões a meritocracia. Como é possível falar em meritocracia numa das sociedades mais desiguais do planeta? Na Finlândia é possível falar em meritocracia, lá há condições sociais mais igualitárias. Agora no Brasil. Isso mesmo Duco Rolim é obsceno pra dizer o mínimo. Como poderíamos atestar que os filhos das classes subalternas tem condições de concorrência iguais com os filhos das elites. Estas conseguem fabricar o consenso e introjetar nas cabeças dos miseráveis e ofendidos da terra que eles são incompetentes. Por que não dizem que é necessário para o próprio Capital que um exército industrial de reserva ou que os trabalhadores precarizados são necessários ao funcionamento do Sistema do Capital? Capital, trabalho e Estado!

Ricardo Pereira da Silva disse...

Pois é, duro é ouvir esse pessoal atomizado defender em plenos pulmões a meritocracia. Como é possível falar em meritocracia numa das sociedades mais desiguais do planeta? Na Finlândia é possível falar em meritocracia, lá há condições sociais mais igualitárias. Agora no Brasil. Isso mesmo Duco Rolim é obsceno pra dizer o mínimo. Como poderíamos atestar que os filhos das classes subalternas tem condições de concorrência iguais com os filhos das elites. Estas conseguem fabricar o consenso e introjetar nas cabeças dos miseráveis e ofendidos da terra que eles são incompetentes. Por que não dizem que é necessário para o próprio Capital que um exército industrial de reserva ou que os trabalhadores precarizados são necessários ao funcionamento do Sistema do Capital? Capital, trabalho e Estado!

João Vitor Campos e Silva (JB) disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
João Vitor Campos e Silva (JB) disse...

Ótimo texto Duco!!!!
E pegando o gancho do Ricardo, realmente é abominável pensar em meritocracia em uma sociedade desigual como a brasileira. E um fator forte que cataliza a massificação desses valores são nossos veículos de informação. Eu penso que a mídia independente e a internet estão se tornando uma ferramenta poderosa para o questionamento.Por outro lado, em lugares mais inacessíveis, no norte e nordeste principalmente, as comunidades estão completamente desassistidas em relação à saneamento básico, tratamento médico, educação acessível.MAs são fortemente bombardeadas por padrões globais. A TV chega com uma performance altamente catequizadora e essas pessoas acabam incorporando esses valores neo liberais sem pestanejar. A luta será árdua.

Mas temos que reconhecer que em meio a isso há conquistas sociais importantes. O Angú não está totalmente pronto.

Oswaldo (Duco) disse...

Obrigado pelas ideias, debates e críticas feitas! Pela leitura!