Que time é esse: A.S. Livorno (Itália)

“O futebol é um reino da liberdade humana exercida ao ar livre.”
Antonio Gramsci foi filósofo, cientista político, comunista e antifascista italiano.

Falar do futebol italiano e seu lado vermelho é naturalmente falar de Livorno e Perugia, pelo menos no que se refere aos clubes. Em alguns textos anteriores que publiquei em redes sociais (tenho uma página sobre futebol e libertarismo) falei sobre a consolidação fascista no Calcio (Liga de Futebol da Itália) e também republiquei um texto da página de FB Palmeiras Anti-Fascista que mostrava alguns nomes de jogadores de futebol (principalmente dos anos 90 para cá) ligados às ideias de extrema direita, e quase todos eram da ou jogaram na liga italiana.



Com esse texto pretendo continuar minhas análises dessa liga que tem me chamado a atenção por um conjunto de curiosidades de seu atual momento. Primeiro, que de todas as ligas europeias a que mais se assemelha à nossa é a italiana (em especial pelo perfil dos clubes e o enfraquecimento das ligas profissionais). Os resultados das seleções da Itália nos últimos anos são bem fracos (amargam duas eliminações seguidas na fase de grupos da Copa do Mundo, apesar de chegarem sempre com prestígio), e os clubes locais vão indo mal nas competições europeias e há pouca perspectiva quanto a uma luz no final do túnel (como diria o querido amigo Duco: “A luz no final do túnel é um trem vindo de encontro”). Mas o que realmente me atrai é o fundo desse buraco em uma liga tão tradicional. Campeonato desorganizado, clubes, árbitros e jogadores corruptos, elitização através de privilégios a clubes (Milan e Juventus que o digam), clubes falidos contratando medalhões banidos de outras ligas por problemas extracampo... Peleguismo e dificuldade de reverter o processo fecham a lista.

Entretanto em meio a isso, sempre encontro histórias bastante interessantes como a do Livorno, clube que fui me dar conta de sua existência em 01-02 (quando eu tinha uns 14 anos), com um dos primeiros jogos managers que joguei e no qual gostava de contratar os jovens jogadores italianos desse clube, Marco Amelia e Chiellini. Apesar de, mais pelo Maradona, ter me interessado como torcedor primeiramente pelo Napoli. Mas com os anos passando passei a ter um carinho especial pelo Livorno e já entenderão o por que.

O caso do Livorno com o comunismo é uma das coisas mais importantes que aprendi com meu finado avô, filho de italiano e em seu ápice um grande comunista (antes de ser atingido por problemas com a memória), se trata de uma paixão daquelas que contagia a torcida até hoje e não ficou só na tradição como na maioria dos clubes, muito pelo ao contrário essa raiz sobreviveu forte podemos observar nas falas de sua torcida: “Não há torcedor do Livorno que não seja de esquerda”, afirma o estudante Christian Biasci, um entusiasmado torcedor. Algo que é excepcional em um país que passou anos mergulhado em regimes e governos de extrema direita sob a tutela de gente como Mussolini e depois Berlusconi (que inclusive chegou a articular-se com a federação italiana, o boicote a um dos maiores artilheiros italianos dos anos 2000 por fortes suas concepções de esquerda, e que jogava no Livorno).



Fundado em 1915 era o clube símbolo dos trabalhadores portuários da cidade de Livorno, a conexão com o mar facilitou o contato com o futebol uma vez que o local recebia muitos navios ingleses cujos marinheiros gostavam de praticar o esporte nas horas vagas, com problemas financeiros no começo o clube teve grande dificuldade de se consolidar. Mas após alguns anos se estabilizou e chegou a conseguir resultados impressionantes, apesar da instabilidade inicial, como o segundo lugar na liga de 1919-20.



Foi em Livorno, na região da Toscana, a 86 km de Florença, onde Antonio Gramsci fundou o Partido Comunista Italiano em 1921, e com a ascensão dos "camisas negras" de Mussolini ser comunista era um problema sério. A não ser que se fosse de Livorno, cidade que era conhecida por sua forte ligação com a ideologia vermelha, o que diminuía bastante o risco de denúncias, perseguições e sustos. A cidade era um bloco sólido de resistência e daí surgiram alguns grandes lideres que espalharam a mensagem de resistência ao fascismo e à exploração pela luta de classes pelo resto do país.  Entre os jogadores, grande parte é comunista, anarquista ou progressista.




Por exemplo, o aposentado atacante Lucarelli, que há alguns anos chegou à artilharia do Calcio e à seleção italiana atuando pelo Livorno (também teve passagens por clubes médios italianos e no futebol ucraniano, tornou-se o espelho do jogador que abraça um ideal através de uma camisa, pronto a abdicar do dinheiro e da fama para cumprir um sonho: jogar no clube que para ele exemplifica um estado de alma, negou propostas do Milan por questões ideológicas), chegou a ter sérios problemas com a federação local por, após marcar um gol com a seleção sub-21 e mostrar uma camiseta de Che Guevara e por isso teve vida curta com a camisa da seleção Azzura.



Obviamente as cosias não são lá muito fáceis ao Livorno. Com resistência da federação local, o clube tem grande dificuldade de manter seus jovens talentos diante de clubes como Udinese, Palermo, Napoli, Parma, Sampdoria, Torino, além dos que se articulam com capital multinacional como Roma e Inter, ou mesmo são parte da propriedade de Berlusconi como Milan.
Para se ter uma noção dessa situação, aqui vai uma rápida lista de jogadores revelados ou que ganharam espaço e fama nesse clube, vestiram a camisa Azzura em alguma categoria (do sub 17 ao profissional) e que jogaram ou jogam em Milan, Juventus, Lazio, Roma e Napoli:
Marco Amelia (Goleiro), Francesco Bardi (Goleiro), Chiellini (ZG), Viali (ZG), Candreva (MC), Benassi(MC) Protti (Atacante), Palladino (Atacante)e Lucarelli (Atacante).

O clube atualmente se encontra na séria B da Itália e há muitas histórias sobre “garfadas” feias por parte das arbitragens desde a época de Mussolini e até hoje. Nada surpreendente para uma liga que permite que as torcidas e os jogadores se façam saudações nazistas e se declarem fascistas, homofóbicos, racistas e anti-imigrantista (casos de Abbiati, Di Canio, Legrottaglie, De Rossi, Buffon), mas se um jogador comemorar gol com a camiseta de Che é banido da seleção. “Ditadura comunista, ditadura contra de expressão” é o que resmunga o mais desatento e pelego fã de esportes. Mas não há como não se deleitar com enfrentamentos feitos por essa apaixonada torcida, como da vez em que ao ser provocada com cânticos racistas, homofóbicos, direitistas, no estádio Olímpico em Roma pela torcida da Lazio (que tem a fama pelo seu posicionamento a lá extrema direita e de estender bandeiras com a suástica e outros símbolos nazistas) a torcida do Livorno (em números expressivamente menores em termos quantitativos), ofuscou a torcida rival com seus cantos comunistas e bandeiras de Che, a foice e o martelo e outras. Ou a vez que “invadiram” Milão e provocaram Berlusconi com 10mil torcedores e seus cantos e bandeiras vermelhas. Curiosamente nessa mesma temporada, após o ocorrido, parte da imprensa e até o prefeito da cidade de Livorno questionou o número de gols anulados e pênaltis dados contra o clube... Apesar da federação de lá negar qualquer “revanchismo” ou “perseguição”. Conhecemos bem essa história.
Queiram ou não o Livorno continua lá, de pé. Revelando jovens talentos e se reinventando, temporada após temporada. Com sua torcida estendendo imagens de Che, Marx, a foice e o martelo e seu escudo.

Obs 1.: O primeiro hino de um clube de futebol da Itália é do Livorno, de 1938, composto por Montanari ( http://www.youtube.com/watch?v=CQESkVvatOg ).

Obs 2.: Junto com AEK Atenas (Grécia) e o Olympique de Marselha (França) suas torcidas são chamadas de "triângulo da fraternidade" pela conexão com o pensamento comunista. Suas torcidas também têm uma recente conexão com Demirspor (Turquia), Celtic (Escócia) e Omonia de Nicósia (Chipre).


Obs 3.: Em setembro de 2009, a equipe do Livorno realizou um amistoso com Adana Demirspor, aproveitando a oportunidade clubes e torcedores realizaram um comício de esquerda na cidade de Adana, na Turquia. 

5 comentários:

Oswaldo (Duco) disse...

Ótimo texto Fábio! Ideologias políticas explicadas através do futebol! Futebol como reino da liberdade humana, boa essa do Gramsci!! É interessante notar que o Livorno e, em específico, do jogador Lucarelli, sigam esse princípio comunista! Futebol é política também, ao contrário do que falam alguns que futebol seria o ópio do povo! Seu uso político é o que tem que ser discutido!!! A luz no fim do túnel rsrsrs...essa aprendi, em fato, com o sociólogo Chico de Oliveira kkkk

Fábio Alexandre disse...

Dizer que o futebol, como esporte mais popular e um dos mais fáceis de se jogar no mundo, não é política por si só é uma afirmação de um anacronismo imenso.
A visão como “ópio do povo” no Brasil muito se conecta com o uso dado pelos militares com a seleção de 70 (há relatos de militantes das lutas de esquerda divididos entre torcer ou não por esse time), inclusive para acalmar as tensões populares e mascarar o milagre econômico, e até com a perda da copa de 50, que foi algo estimulado com doses cavalares de nacionalismo inclusive a Copa Rio de 51 (o polêmico mundial de clubes que o Palmeiras ganhou) foi organizado já com principio político e nacionalista e mais recentemente com questões da elite pela popularização do esporte. Flamengo bebendo nas fontes da ditadura, assim como Atlético de Madrid com o Franquismo, Roma com Mussolini e até o Milan de Berlusconi... Mas também existia contrapontos como a seleção húngara de Puskas, Kocsis, Kubala e outras estrelas pelos soviéticos (além do forte clube MTK da Hungria), aqui no Brasil a Juventus da Moca de ideologias mais à esquerda, assim como Perugia e Livorno da Itália...
Até mesmo algumas posições de jogadores contemporâneas não podem ser descartadas. Cristiano Ronaldo não troca camisas com a seleção de Israel pela questão da Palestina, Messi apoia e se envolve com as “comissões da verdade” da Argentina, Valdívia e Vargas defendem a educação pública gratuita e de qualidade no Chile entre outros ocorridos.
Pode-se até não gostar do esporte, mas qualquer negação de sua importância social e história é um generalismo tolo e imbecil. Tanto quanto simplesmente resumi-lo meramente à “um ópio do povo”.

Cabecinha disse...

Ótimo texto. Adoro conhecer a história do futebol sob o aspecto político-histórico. Soube hoje sobre a história do Livorno.
Eu tb tenho simpatia pelo Napoli por causa do Maradona, e pela questão "norte-sul" da Itália, bem parecida com o Brasil.
Mas o Livorno tem, agora, mais um novo simpatizante.

Cabecinha disse...

Ótimo texto. Adoro conhecer a história do futebol sob o aspecto político-histórico. Soube hoje sobre a história do Livorno.
Eu tb tenho simpatia pelo Napoli por causa do Maradona, e pela questão "norte-sul" da Itália, bem parecida com o Brasil.
Mas o Livorno tem, agora, mais um novo simpatizante.

Cabecinha disse...

Ótimo texto. Adoro conhecer a história do futebol sob o aspecto político-histórico. Soube hoje sobre a história do Livorno.
Eu tb tenho simpatia pelo Napoli por causa do Maradona, e pela questão "norte-sul" da Itália, bem parecida com o Brasil.
Mas o Livorno tem, agora, mais um novo simpatizante.